O empirista
Provavelmente o maior filósofo a ter escrito na língua inglesa, Hume foi mais conhecido em seu tempo como historiador. No entanto, foi sua abordagem revolucionária de questões epistemológicas que fez dele a figura-chave no Iluminismo, e é por ela que é lembrado hoje.
Hume tentou descrever a mente humana da mesma maneira que os fenômenos naturais, encontrando as leis gerais que explicam todos os processos mentais. Seguindo as pegadas empiristas de Locke e Berkeley, via os sentidos como nossa fonte-chave de conhecimento. Ele dividiu os conteúdos da mente em duas categorias: "impressões", as percepções de que gozamos quando o mundo marca nossos sentidos; e "ideias", as cópias menos vívidas das impressões. As ideias são os conceitos e pensamentos de coisas que não estamos mais experimentando, mas somos capazes de evocar em nossas mentes. O sentido filosófico dessa distinção é insistir que não há nada na mente - nem mesmo o pensamento mais abstrato - que não seja simplesmente sensação transformada.
Ideias simples e complexas
Ideias simples devem vir de impressões simples, mas as complexas podem ser criadas na mente pelo rearranjo de ideias simples. Desse modo, somos capazes de formar conceitos de coisas que não experimentamos, como por exemplo, de um unicórnio.
Cabe ressaltar, contudo, que se não pudermos encontrar a origem de uma ideia em impressões simples, ela não pode ser uma ideia genuína. Hume usa isso para desenvolver críticas importantes a conceitos filosóficos como os de eu, Deus, objetos materiais e causação. Porque, se não pudermos descobrir a origem desses conceitos, teremos que repensar o que queremos dizer com eles e os usos que lhes damos.
"A razão é e deve ser apenas a escrava das paixões, e nunca pode aspirar outro serviço senão servir-lhe e obedecer-lhes" -Tratado da natureza humana
O eu
Para dar um exemplo, Hume afirma que, quando examina sua mente, encontra um fluxo de impressões e ideias, mas nenhuma correspondente a um eu que perdure no tempo. Ele concluiu que o eu não é nada além do fluxo de percepções de que gozamos. Um "eu permanente" não passa de uma ficção produzidas por nossas imaginações.
Filosofia moral
Segundo Hume, os juízos morais não se baseiam em fatos objetivamente observáveis. Quando dizemos que um ato é moralmente errado, comunicamos o modo como nos sentimos acerca dele. Mas isso não significa que a moralidade seja um assunto totalmente subjetivo. Todos os seres humanos partilham uma natureza comum que nos faz experimentar sentimentos de compaixão por nossos semelhantes, e, como somos programados para senti-los, os juízos morais refletem verdades universalmente aceitas.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
terça-feira, 7 de abril de 2015
Deus existe?
Deus deve existir
A tentativa de mostrar que é racional crer em Deus tem uma longa história. Os quatro argumentos discutidos aqui tentam inferir a existência de Deus da ideia de Deus, da existência do Universo, da evidência de que o Universo foi planejado e da experiência religiosa.
Santo Anselmo afirmou que podemos deduzir a existência de Deus. Apenas pensando sobre o que Deus é, podemos concluir que ele deve existir. Assim:
-Por definição, Deus é um ser tão grande que maior não pode ser concebido.
-Deus pode ser concebido como mera ideia ou como realmente existindo.
-Existir é maior que não existir. Portanto Deus deve existir.
Isso é conhecido como argumento ontológico.
Gaulino, um monge do século XI, replicou que esse argumento permite provar que qualquer coisa perfeita deve existir. Por exemplo, posso pensar na ilha perfeita,"tão excelente que melhor não possa existir"; portanto, essa ilha deve existir, porque seria menos excelente se não existisse. Mas isto é absurdo. É claro que tal ilha não existe. Não se pode inferir a existência de algo da ideia de que esse algo é perfeito. Anselmo estava ciente do problema e respondeu que o argumento ontológico funciona apenas para Deus, porque a relação entre Deus e grandeza ou perfeição é única.
Deus, o maior
Ilhas não são perfeitas por definição. A perfeição é algo que uma ilha pode ter ou não. Uma ilha imperfeita ainda é uma ilha, porque a perfeição é uma propriedade "acidental", não "essencial" de uma ilha.
Uma propriedade essencial é aquela que algo deve possuir para ser o que é. Em contraposição, Deus tem de ser o maior ser concebível. Por definição, Deus não seria Deus se houvesse algum ser superior a Ele.
Ser maior ser concebível é uma propriedade essencial de Deus. Mas para se qualificar como o maior ser concebível, Deus deve existir.
Existência e perfeição
A resposta de Santo Anselmo não convenceu Tomás de Aquino, para quem a existência não é uma perfeição, algo que se torne um ser maior. Assim, o argumento não mostra que Deus existe. Segundo ele, pode mostrar no máximo que há algum vínculo entre o conceito de Deus e o conceito de existência, porquanto um requer existência e o outro não.
O argumento ontológico apresenta outro problema. Suponha que defino o objeto 1 como algo que é redondo, vermelho e pesa cinco toneladas. Depois, defino o objeto 2 como algo que é redondo, vermelho, pesa cinco toneladas e existe. A única diferença entre os dois é que um existe e o outro não. Posso facilmente imaginar o objeto 1, mas posso imaginar o objeto 2? Obviamente, se não houver o objeto 1, quando tento imaginar o objeto 2 só consigo imaginar o objeto 1. Como a coisa que imagino não existe realmente, ela não pode ser objeto 2. Uma restrição similar aplica-se ao argumento de Anselmo. A primeira premissa afirma que posso conceber "um ser tão grande que maior não pode existir", a saber, Deus. Mas o ser que concebo será Deus? Não se Deus não existir! Portanto o argumento parece ser uma petição de princípio: pressupõe que Deus existe.
Objeção de Kant
Considera-se que Kant derrotou o argumento ontológico, pelo menos nessa forma, de uma vez por todas. Segundo ele, o argumento supõe erroneamente que a existência é uma propriedade. Mas as coisas não "têm" existência do mesmo modo que "têm" outras propriedades. Considere se a afirmação "Deus existe" é analítica ou sintética*. Segundo Anselmo, deve ser analítica - o conceito de "Deus" contém a ideia de existência, assim "Deus não existe" é uma contradição em termos. Mas, afirma Kant, existência nada acrescenta a um conceito, nem o define. Dizer que algo existe significa apenas que algum objeto corresponde ao conceito.
Existência, conclui Kant, não é parte de nenhum conceito, nem do de Deus. Portanto, não é verdade que "Deus não existe" tem de ser verdadeiro.
*Uma proposição é analítica se for verdadeira ou falsa apenas em virtude do significado das palavras. Como "nenhum solteiro é casado" é analitico , é também a priori. Uma proposição é sintética se não for analítica: é verdadeira ou falsa em virtude não do significado das palavras, mas dos fatos. Assim, por exemplo,"não há avestruzes na Islândia" é sintético.
A tentativa de mostrar que é racional crer em Deus tem uma longa história. Os quatro argumentos discutidos aqui tentam inferir a existência de Deus da ideia de Deus, da existência do Universo, da evidência de que o Universo foi planejado e da experiência religiosa.
Santo Anselmo afirmou que podemos deduzir a existência de Deus. Apenas pensando sobre o que Deus é, podemos concluir que ele deve existir. Assim:
-Por definição, Deus é um ser tão grande que maior não pode ser concebido.
-Deus pode ser concebido como mera ideia ou como realmente existindo.
-Existir é maior que não existir. Portanto Deus deve existir.
Isso é conhecido como argumento ontológico.
Gaulino, um monge do século XI, replicou que esse argumento permite provar que qualquer coisa perfeita deve existir. Por exemplo, posso pensar na ilha perfeita,"tão excelente que melhor não possa existir"; portanto, essa ilha deve existir, porque seria menos excelente se não existisse. Mas isto é absurdo. É claro que tal ilha não existe. Não se pode inferir a existência de algo da ideia de que esse algo é perfeito. Anselmo estava ciente do problema e respondeu que o argumento ontológico funciona apenas para Deus, porque a relação entre Deus e grandeza ou perfeição é única.
Deus, o maior
Ilhas não são perfeitas por definição. A perfeição é algo que uma ilha pode ter ou não. Uma ilha imperfeita ainda é uma ilha, porque a perfeição é uma propriedade "acidental", não "essencial" de uma ilha.
Uma propriedade essencial é aquela que algo deve possuir para ser o que é. Em contraposição, Deus tem de ser o maior ser concebível. Por definição, Deus não seria Deus se houvesse algum ser superior a Ele.
Ser maior ser concebível é uma propriedade essencial de Deus. Mas para se qualificar como o maior ser concebível, Deus deve existir.
Existência e perfeição
A resposta de Santo Anselmo não convenceu Tomás de Aquino, para quem a existência não é uma perfeição, algo que se torne um ser maior. Assim, o argumento não mostra que Deus existe. Segundo ele, pode mostrar no máximo que há algum vínculo entre o conceito de Deus e o conceito de existência, porquanto um requer existência e o outro não.
O argumento ontológico apresenta outro problema. Suponha que defino o objeto 1 como algo que é redondo, vermelho e pesa cinco toneladas. Depois, defino o objeto 2 como algo que é redondo, vermelho, pesa cinco toneladas e existe. A única diferença entre os dois é que um existe e o outro não. Posso facilmente imaginar o objeto 1, mas posso imaginar o objeto 2? Obviamente, se não houver o objeto 1, quando tento imaginar o objeto 2 só consigo imaginar o objeto 1. Como a coisa que imagino não existe realmente, ela não pode ser objeto 2. Uma restrição similar aplica-se ao argumento de Anselmo. A primeira premissa afirma que posso conceber "um ser tão grande que maior não pode existir", a saber, Deus. Mas o ser que concebo será Deus? Não se Deus não existir! Portanto o argumento parece ser uma petição de princípio: pressupõe que Deus existe.
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| O deus nórdico Thor era conhecido por seu gênio terrível. Mas Deus não é Deus ao menos que seja perfeito - o que desclassifica Thor. |
Objeção de Kant
Considera-se que Kant derrotou o argumento ontológico, pelo menos nessa forma, de uma vez por todas. Segundo ele, o argumento supõe erroneamente que a existência é uma propriedade. Mas as coisas não "têm" existência do mesmo modo que "têm" outras propriedades. Considere se a afirmação "Deus existe" é analítica ou sintética*. Segundo Anselmo, deve ser analítica - o conceito de "Deus" contém a ideia de existência, assim "Deus não existe" é uma contradição em termos. Mas, afirma Kant, existência nada acrescenta a um conceito, nem o define. Dizer que algo existe significa apenas que algum objeto corresponde ao conceito.
Existência, conclui Kant, não é parte de nenhum conceito, nem do de Deus. Portanto, não é verdade que "Deus não existe" tem de ser verdadeiro.
*Uma proposição é analítica se for verdadeira ou falsa apenas em virtude do significado das palavras. Como "nenhum solteiro é casado" é analitico , é também a priori. Uma proposição é sintética se não for analítica: é verdadeira ou falsa em virtude não do significado das palavras, mas dos fatos. Assim, por exemplo,"não há avestruzes na Islândia" é sintético.
domingo, 5 de abril de 2015
Razão: segredo para a felicidade
Vivendo de acordo com a natureza
Fundador do estoicismo - filosofia que influenciou o mundo helenístico e depois o Império Romano, incluindo o imperador Marco Aurélio entre seus adeptos -, Zenão de Cítio via o mundo como racionalmente ordenado e afirmava que a paz de espírito é alcançada mediante o controle das paixões.
" A felicidade é o bom fluir da vida " - Zenão de Cítio
Só sabemos dos ensinamentos de Zenão através dos estoicos posteriores, que ele influenciou. Era materialista e, como Heráclito, via a alma como feita de fogo. O curso da natureza, pensava, era rigidamente determinado, todos os elementos emergindo do fogo e retornando a ele num ciclo sem fim. Panteístas, os estoicos afirmavam que a força criativa suprema do Universo permeia todas as coisas e que o mundo natural é racionalmente ordenado pelo legislador divino. A vida virtuosa está em harmonia com essa ordem natural, por isso deveríamos aceitar o que não podemos mudar, sem nos zangarmos com o destino - ideias que caracterizam o " estoicismo " na imaginação popular.
Zenão admirava Sócrates por sua serenidade diante da morte, sua renomada capacidade de suportar sofrimento físico e sua falta de interesse pelos prazeres mundanos. Por vezes, Zenão é chamado de Apathea, pois ensinava que a indiferença é o caminho para a felicidade.
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| Segundo Zenão, não nos deveríamos deixar escravizar por nossas emoções, mas sim ,como o Dr. Spock em Jornada nas estrelas, seguir a via da razão. |
sábado, 4 de abril de 2015
A fundação da moral na razão
A moral kantiana
Como animais racionais, afirmou Kant, fazemos escolhas com base em "máximas", a versão kantiana das intenções, nossos princípios pessoais que corporificam nossas razões para fazer algo, como "ter o máximo de diversão possível". Se é possível para todos agir moralmente, e nossas ações baseiam-se em nossas máximas, uma máxima moralmente permissível seria uma que todos pudessem praticar.
Suponha que você queira dar um presente a um amigo, mas, como não tem meios para isso, furta-o de uma loja. Sua máxima é algo como:"Roubar algo que quero, se não posso comprar". Isso só poderia ser a coisa certa a fazer se todos pudessem fazê-la. Mas se todos nos apoderássemos de tudo que queremos, a ideia de "possuir" coisas desapareceria.
Como você não pode furtar algo que não pertença a alguém, é logicamente impossível que todos furtem coisas. Por isso, furtar o presente é errado, segundo Kant.
Podemos descobrir novos deveres testando nossas máximas contra o que Kant chamou de imperativo categórico (um imperativo que é uma ordem): "Age somente segundo uma máxima tal que possas querer, ao mesmo tempo, ver transformada em lei universal." Kant não afirma que uma ação como furtar é errada porque não gostaríamos das consequências se todos a praticassem. Seu teste é se poderíamos escolher ("querer") que nossa máxima fosse uma lei universal. Trata-se do que é possível escolher, não do que gostaríamos de escolher. Escolher comportar-se de uma maneira que é impossível que todos adotem, é ao mesmo tempo , imoral e irracional, e deveria ser rejeitado. Kant prescreveu também:" Age de tal modo que sempre trates a humanidade, seja na tua própria pessoa ou na de qualquer outro, nunca simplesmente como um meio, mas sempre como também um fim." Ao usar a palavra "humanidade", ele enfatiza nossa capacidade de determinar racionalmente que fins adotar e perseguir. A capacidade de fazer escolhas livres e racionais dá dignidade aos seres humanos.
Tratar a humanidade de alguém como mero meio, e não também como um fim, é tratar a pessoa de um modo que menospreza seu poder de fazer uma escolha racional. Coagir alguém ou mentir-lhe, não lhe permitindo fazer uma escolha bem fundamentada, são exelentes exemplos.
Immanuel Kant afirma que princípios morais podem ser derivados apenas da razão prática. Sendo assim, pensava ele, podemos explicar as características da moral. Ele a considerava universal: um conjunto de regras que é o mesmo pra todos. Deve ser possível para todos agir sempre moralmente(ainda que seja muito improvável que o façam). A razão também é universal, a mesma em todos os seres racionais. Moralidade e racionalidade são categóricas; o que é exigido para sermos racionais e morais não muda segundo o que desejamos. E pensamos que a moral se aplica a todos os seres racionais, não apenas ao homem. Ela não se aplica a seres incapazes de fazerem escolhas racionais, como cães e gatos (animais podem se comportar mal, mas não agem moralmente errado).
"Leis morais têm de se aplicar a todo ser racional como tal." -Fundamentos da metafísica dos costume
Máximas morais
Como animais racionais, afirmou Kant, fazemos escolhas com base em "máximas", a versão kantiana das intenções, nossos princípios pessoais que corporificam nossas razões para fazer algo, como "ter o máximo de diversão possível". Se é possível para todos agir moralmente, e nossas ações baseiam-se em nossas máximas, uma máxima moralmente permissível seria uma que todos pudessem praticar.
Suponha que você queira dar um presente a um amigo, mas, como não tem meios para isso, furta-o de uma loja. Sua máxima é algo como:"Roubar algo que quero, se não posso comprar". Isso só poderia ser a coisa certa a fazer se todos pudessem fazê-la. Mas se todos nos apoderássemos de tudo que queremos, a ideia de "possuir" coisas desapareceria.
Como você não pode furtar algo que não pertença a alguém, é logicamente impossível que todos furtem coisas. Por isso, furtar o presente é errado, segundo Kant.
Podemos descobrir novos deveres testando nossas máximas contra o que Kant chamou de imperativo categórico (um imperativo que é uma ordem): "Age somente segundo uma máxima tal que possas querer, ao mesmo tempo, ver transformada em lei universal." Kant não afirma que uma ação como furtar é errada porque não gostaríamos das consequências se todos a praticassem. Seu teste é se poderíamos escolher ("querer") que nossa máxima fosse uma lei universal. Trata-se do que é possível escolher, não do que gostaríamos de escolher. Escolher comportar-se de uma maneira que é impossível que todos adotem, é ao mesmo tempo , imoral e irracional, e deveria ser rejeitado. Kant prescreveu também:" Age de tal modo que sempre trates a humanidade, seja na tua própria pessoa ou na de qualquer outro, nunca simplesmente como um meio, mas sempre como também um fim." Ao usar a palavra "humanidade", ele enfatiza nossa capacidade de determinar racionalmente que fins adotar e perseguir. A capacidade de fazer escolhas livres e racionais dá dignidade aos seres humanos.
Tratar a humanidade de alguém como mero meio, e não também como um fim, é tratar a pessoa de um modo que menospreza seu poder de fazer uma escolha racional. Coagir alguém ou mentir-lhe, não lhe permitindo fazer uma escolha bem fundamentada, são exelentes exemplos.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Platão e as ideias
O legado de Platão
A filosofia de Platão teve enorme impacto na cultura ocidental, em particular sobre o pensamento cristão. Considere, por exemplo, a ideia do bem. Ela se assemelha muito à concepção cristã moderna de Deus. Isso não é mera coincidência. Filósofos como Santo Agostinho adotaram e adaptaram ideias platônicas, mesclando-as fortemente com a tradição filosófica cristã.
Um pensador cristão do século XX fortemente influenciado por Platão foi C.S Lewis, autor de O leão, a feiticeira e o guarda roupa e das outras crônicas de Nárnia. Lewis chamou nosso mundo Terra das Sombras - uma referência direta à alegoria da caverna. Como Platão, ele acreditava que nosso mundo é essencialmente ilusório: o mundo real é aquele para onde vão nossas almas quando morremos. Para Lewis, a ideia cristã de vida após a morte e o reino das ideias de Platão se fundem.
Hoje, poucos filósofos abraçam a teoria das ideias de Platão. Mas as questões que ele formulou e os métodos que usou para tentar respondê-las continuam a dominar a tradição filosófica ocidental.
A filosofia de Platão teve enorme impacto na cultura ocidental, em particular sobre o pensamento cristão. Considere, por exemplo, a ideia do bem. Ela se assemelha muito à concepção cristã moderna de Deus. Isso não é mera coincidência. Filósofos como Santo Agostinho adotaram e adaptaram ideias platônicas, mesclando-as fortemente com a tradição filosófica cristã.
Um pensador cristão do século XX fortemente influenciado por Platão foi C.S Lewis, autor de O leão, a feiticeira e o guarda roupa e das outras crônicas de Nárnia. Lewis chamou nosso mundo Terra das Sombras - uma referência direta à alegoria da caverna. Como Platão, ele acreditava que nosso mundo é essencialmente ilusório: o mundo real é aquele para onde vão nossas almas quando morremos. Para Lewis, a ideia cristã de vida após a morte e o reino das ideias de Platão se fundem.
Hoje, poucos filósofos abraçam a teoria das ideias de Platão. Mas as questões que ele formulou e os métodos que usou para tentar respondê-las continuam a dominar a tradição filosófica ocidental.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Deus está morto, e foi você quem matou
Subvertendo os valores
Todo o projeto filosófico de Nietzsche pode ser visto como uma tentativa de encontrar uma via de escape ao mal estar provocado pela morte de Deus. É em Além do bem e do mal e Sobre a genealogia da moral que ele desenvolve suas críticas mais conhecidas dos valores judaico-cristãos que esperava superar.
Segundo suas análises, o que normalmente consideramos "bom" é na verdade uma valorização da condição dos fracos. A negação cristã das diferenças entre os seres humanos, sua pretensa humildade, seu amor universal, sua rejeição das paixões físicas de um mundo pecaminoso, tudo advém de uma rejeição ressentida dos valores afirmativos de um tipo nobre e mais elevado de ser humano. É preciso resistir à tentativa dessa moralidade escrava de domar fera dentro de nós, para que valores nobres, com sua expressão ousada de força e poder, possam ser revitalizados. Disso surge o grande desafio de Nietzsche à humanidade e o grande remédio para o niilismo:sua visão do "Super-homem", uma nova estirpe de homens que transformaria os valores estabelecidos.
As primeiras preocupações filosóficas de Nietzsche foram fruto de seu envolvimento com a visão ateia de Schopenhauer de um mundo governado por forças irracionais e caracterizada pela ambição e pelo sofrimento. Mas Nietzsche rejeitou essa reação pessimista de Schopenhauer a esta condição e afirmou que as pessoas haviam perdido a fé na ordem divina que sustentava seu sistema tradicional de valores.
Todo o projeto filosófico de Nietzsche pode ser visto como uma tentativa de encontrar uma via de escape ao mal estar provocado pela morte de Deus. É em Além do bem e do mal e Sobre a genealogia da moral que ele desenvolve suas críticas mais conhecidas dos valores judaico-cristãos que esperava superar.
Segundo suas análises, o que normalmente consideramos "bom" é na verdade uma valorização da condição dos fracos. A negação cristã das diferenças entre os seres humanos, sua pretensa humildade, seu amor universal, sua rejeição das paixões físicas de um mundo pecaminoso, tudo advém de uma rejeição ressentida dos valores afirmativos de um tipo nobre e mais elevado de ser humano. É preciso resistir à tentativa dessa moralidade escrava de domar fera dentro de nós, para que valores nobres, com sua expressão ousada de força e poder, possam ser revitalizados. Disso surge o grande desafio de Nietzsche à humanidade e o grande remédio para o niilismo:sua visão do "Super-homem", uma nova estirpe de homens que transformaria os valores estabelecidos.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
O mal gera o mal?
A falácia genética
Ovos têm cascas duras. Frangos vêm de ovos. Logo frangos têm cascas duras. Como alguém sensato pode cometer falácia genética? Contudo, o filósofo Friedrich Nietzsche foi acusado de fazer exatamente isso. O argumento de Nietzsche contra a moral cristã moderna é que ela tem raízes na "moral escrava" da Roma antiga, nascida do ressentimento dos escravos contra os seus donos. Os escravos, de fato, inverteram os valores de seus senhores, tornando a fraqueza "boa", o ethos guerreiro de seus senhores "mau" etc. Mas mesmo que Nietzsche esteja certo, isso invalida necessariamente a moral cristã? Nietzsche parece supor que, ao mostrar um defeito na origem de uma coisa, invalida a própria coisa. Mas esse costuma ser um raciocínio falacioso.
Para entender a falácia genética, supõe-se que uma coisa, B, tem origem em outra coisa, A, todas as propriedades possuídas por A provavelmente também são possuídas por B. Se uma pessoa o incentiva a crer que, se uma coisa teve origem em algo mal (ou bom), essa coisa deve ser ela própria má (ou boa), sempre vale a pena examinar mais de perto seu
raciocínio ela pode estar cometendo uma falácia genética.
Ovos têm cascas duras. Frangos vêm de ovos. Logo frangos têm cascas duras. Como alguém sensato pode cometer falácia genética? Contudo, o filósofo Friedrich Nietzsche foi acusado de fazer exatamente isso. O argumento de Nietzsche contra a moral cristã moderna é que ela tem raízes na "moral escrava" da Roma antiga, nascida do ressentimento dos escravos contra os seus donos. Os escravos, de fato, inverteram os valores de seus senhores, tornando a fraqueza "boa", o ethos guerreiro de seus senhores "mau" etc. Mas mesmo que Nietzsche esteja certo, isso invalida necessariamente a moral cristã? Nietzsche parece supor que, ao mostrar um defeito na origem de uma coisa, invalida a própria coisa. Mas esse costuma ser um raciocínio falacioso.
Para entender a falácia genética, supõe-se que uma coisa, B, tem origem em outra coisa, A, todas as propriedades possuídas por A provavelmente também são possuídas por B. Se uma pessoa o incentiva a crer que, se uma coisa teve origem em algo mal (ou bom), essa coisa deve ser ela própria má (ou boa), sempre vale a pena examinar mais de perto seu
raciocínio ela pode estar cometendo uma falácia genética.
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| Cometemos a falácia genética ao ficarmos chocados por Luke Skywalker ser tão corajoso e bom quando seu pai Darth Vader é tão mal? |
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